19.12.09

Marlene

- Cachorro! Te dei casa, comida, roupa lavada e bicicreta!

Alguns dias depois, entre uma cachaça e outra, ele não soube dizer o que tinha doído mais. A acusação ou a bofetada que o jogou nos paralelepípedos. A mão o acertou embaixo da orelha esquerda. Mal teve tempo de se levantar antes que ela partisse novamente para cima dele, bufando e babando, os olhos injetados de sangue. Alguns populares que passavam por perto conseguiram, com muito custo, segurá-la e ele pôde sair correndo.

Marlene era uma loira grande, corpulenta, já quarentona, bem maior que ele, um mulatinho mirrado e raquítico. Ele fazia bicos como faxineiro em uma obra e ela trabalhava como cozinheira numa escola do bairro. Era um sábado e eles se conheceram num forró, ele de olho em toda mulher que passava e ela já meio tonta de cerveja. Terminaram juntos na cama da casa dela, um quarto e sala perto da saída da cidade. Três dias depois ele se mudava pra lá, melhor que morar de favor no depósito da obra. A mudança era pouca, apenas uma mala velha com um punhado de roupas.

No início tudo tinha sido muito bom. Era difícil o dia em que ele não a deixava arfando, descabelada, saciando as vontades daquela mulher. Mas os meses foram correndo e ela passou a ser mais mandona e possessiva e menos acessível às suas investidas noturnas. Não demorou muito e ele começou a arrumar jeito de se engraçar para outras. Continuava trabalhando como faxineiro e como ela mantinha a casa, o dinheiro dele passou a financiar o bicho, as cervejas e os presentinhos dados às mulheres com quem saía enquanto ela trabalhava no turno da noite. A única economia era o de uma centena premiada. Bendito jacaré.

Ele esperava que ela saísse, subia na bicicleta e ia para qualquer bar bem longe, se encontrar com as amigas, buscando dentro delas o que lhe faltava em casa. Tinha cuidado, porém, em voltar antes de Marlene, tomar um banho e esperá-la na porta, carinhoso e perfumado, com beijo e jantar na mesa. Mas naquele dia algo saiu errado, a diretora cancelou a aula por conta de um vazamento nas privadas do segundo andar que empesteou o prédio e ela foi embora mais cedo, flagrando-o no meio da rua, com uma mão apoiada no guidom da bicicleta e outra nos quadris de uma qualquer. Ela não pensou duas vezes e desceu-lhe a mão, encerrando o relacionamento à base de pescoção.

Ele virou a cachaça e quando o amigo perguntou se ele sentia falta de alguma coisa. Da mulher, da casa, de ter alguém em quem se encostar. Ele depôs o copo no balcão e, sentido, suspirou:

- Sinto falta é da bicicreta.

17.12.09

De amigos e copos

tivemos copos nas mesmas mesas
mesmos bares, assuntos comuns
afogados em mais de mil goles
a dor não te leva a lugar algum

no fim das confidências
eu saía trocando as pernas
e você flanando nas ruas
uma fada, embriagada, eterna

em qual esquina você sumiu?
na neblina do uísque e outros mais
às vezes um ou outro copo
a sua lembrança me traz

arremato o último gole
já não cambaleio como antes
sorrio, agora entendo tudo
você era fada, eu sou gigante

19.11.09

Entrelinhas

numa frase, um mundo
um mundo por segundo
a vida por um fio
o telefone que não cai

a idéia que persegue
a cabeça tão vazia
na tua frente a lingua trava
palavra que não sai

escrever, cantar, contar
colocar pontos, vírgulas, pausas
onde se quiser
e não onde a vida teima de colocar

o chochicho atrás da porta
pela fresta, pela greta
murmurando a letra
no braile do carinho

desentender o olhar
passar despercebido
escancarar a vontade
pra não voltar sozinho

escrever, cantar, contar
colocar pontos, vírgulas, pausas
onde se quiser
e não onde a vida teima de colocar

apagar o escrito
valorizar o não dito
pra começar de novo
reescrever nossa história

escrever, cantar, contar
colocar pontos, vírgulas, pausas
onde se quiser
e não onde a vida teima de colocar

6.11.09

Projeção

querer ser herói
matar o dragão
salvar a princesa
ser coroado rei

ser um cantor
despertar paixões
ter as roupas rasgadas
por milhares de fãs

escrever livros
para as cabeceiras
de tantos insones
que querem teus sonhos

ou então
ser apenas você
com toda alegria e dor
se ser tão comum
de ter emoções
de ser qualquer um
ser tão feliz
por ser tão normal
ser tão igual
tão especial

14.10.09

A vida começa aos quarenta

Juro que serei um sujeito sério. Até os quarenta.
Até lá serei o exemplo do pai, do marido, do funcionário padrão. Responderei com sorrisos a todas as agruras que a vida me impôr. Construirei uma vida e uma reputação inabalável, terei um patrimônio, se não invejável, ao menos confortável. Até os quarenta.
Aí então, às vesperas do meu quadragésimo aniversário, farei vultosos seguros de vida, onde beneficiarei todos os meus, até então, poucos dependentes. Prepararei cuidadosamente a vida futura daqueles que carregarem em si minha semente. Aí acreditarei no dito que proclama que a vida começa aos quarenta.
Deixarei para trás a família, os filhos. A mulher que me cerceava o chope com os amigos, os parentes que viviam a me pedir favor. Os falsos amigos do escritório. Farei todos comerem a poeira de meu verdadeiro eu. Baterei a porta com a violência represada em quarenta anos de bom-mocismo e partirei com a fúria correspondente ao mundo.
Aí sim, de peito aberto, com o nome de Quincas Berro d'Àgua tatuado no braço, à guisa de patuá, desbravarei o mundo. O corpo, poupado por tantos anos, responderá à altura. Beberei todo o álcool que me foi negado durante minha vida. Provarei de todas as mulheres que cruzarem meu caminho, fazendo o possível para trasmitir à humanidade, através delas, meu sangue ruim. Não farei distinção entre noite e dia, e tal qual meus heróis ébrios, farei minha epopéia rumo à degragação.
Após essa miríade de orgias, um dia, meu coração irá falhar.

Óbvio, logo ele, tão encarcerado por tantos anos, coitado, quando se viu livre da gaiola que lhe foi imposta por tantas convenções sociais, subirá tão alto que o oxigênio irá lhe faltar e então, explodirá num infarto fulminante, deixando pra trás o gosto de uns poucos anos vividos ao máximo, o gran finale magnifíco para uma vida que fez tanto em tão pouco.
Através das últimas transações financeiras feitas quando eu ainda era um homem sério, deixarei o legado de alguma posse aos herdeiros de meu sangue podre. Para que eles, assim como eu, deixem dissimulada minha má semente sob o verniz do falso bom caráter que um dia fui.
Deixarei assim, ao futuro, alguns anos que refocilaram na lama com quatro décadas de cinismo e uma última boa ação que me redimiu. O último ato de um cínico. Que isso sirva de mau exemplo a todos que comigo partilharam o pão, o sal e a boemia.

1.10.09

Pipa voada

de laços cortados
sem contato com chão
à mercê do vento
ao sabor da corrente
esperando a hora
de uma nova paixão

sou pipa voada
sem nenhum paradeiro
voando tão solta
esperando a hora
de alguém encontrar

nada mais me prende
grades, promessas
acordos desfeitos
agora eu posso
ser livre e voar

se algum dia
descobrir novo porto
de aconchego e seguro
pode ser que eu volte
de novo pousar

27.9.09

Sonho de você

hoje eu acordei
com vontade de você
com saudade do teu cheiro
querendo muito te ver

hoje eu acordei
com a lembrança do teu gosto
a imagem do teu corpo
sua pele em meu rosto

porque você está tão longe
do meu calor, do meu carinho
porque é tão díficil
sem você, ficar sozinho

hoje eu acordei
querendo de viajar
andar mais de mil léguas
e poder te abraçar

hoje eu acordei
de um sonho tão real
estava do teu lado
em nosso mundo ideal

24.9.09

Sábado à noite

E, naqueles tempos de dureza, só nos restava o romantismo de bermudas e chinelos. Regado a vinho barato e músicas no violão, ali mesmo na pracinha em frente ao prédio. Juntávamos os trocados, íamos ao mercado e trazíamos uma garrafa ou duas do que estivesse na promoção. Normalmente, era um vinho que deixava as línguas roxas e nos dava uma ressaca desmoralizante.

Mas eram sábados em que precisávamos sair de casa, nem que fosse só até à pracinha, onde sempre passavam algumas meninas. A esperança de que alguma delas viesse até nossa rodinha e pedisse uma música é que nos movia. Éramos quase todos estudantes, vindos cada um de um canto, morando na mesma pensão. Um sobrado caquético e embolorado. Mas a comida era boa e o preço, acessível, e íamos ficando ali.

Eram uns quinze sujeitos morando na pensão, mas nosso grupo tinha apenas quatro integrantes. Eu, que estudava e trabalhava com contabilidade, o Zé Eduardo, que fazia enfermagem e dava plantão às sextas no posto de saúde do bairro, Bigode, balconista de uma loja de tecidos e que terminava o segundo grau à noite e o César, que fazia supletivo e mandava quase todo o dinheiro que ganhava na loja de tintas para a mãe, no interior de Minas.

A gente mal se falava de segunda a sexta, mas como dividíamos o mesmo quarto, acabamos amigos e sempre andávamos juntos nos fins de semana. O César tinha um violão, e nos sábados à noite íamos para a pracinha e ficávamos bebendo, tocando violão e esperando que alguma menina viesse pedir alguma música pra nós.

Nem lembro mais por quanto tempo cumprimos esse ritual dos sábados. Aí um dia, uma menina veio falar conosco. Ela pediu uma música que o Bigode sabia, acho que era uma do Zé Ramalho. Ele tocou e ela ficou ali, olhando, debruçada num dos bancos da praça. Ele tocou mais uma e mais outra, e ela ali, até aceitou o vinho que oferecemos. Ela se levantou, jogou um beijo pro Bigode e outro pra nós todos e saiu, rebolando.

No sábado seguinte, ela veio com mais uma amiga e elas ficaram ali quase a noite toda. Cantaram junto e pediram músicas. Beberam e riram com a gente. Eu acabei voltando mais cedo para a pensão e deixei os três com as meninas na praça. Tinha de visitar uma tia em Nova Iguaçu e precisava acordar cedo. Acordei cinco da manhã e nenhum de meus camaradas estava no quarto. Fiquei feliz por achar que finalmente as coisas estavam começando a dar certo para eles. Me vesti e fui para o ponto de ônibus. A praça estava vazia, meus amigos aparentemente estavam se dando bem. Entrei no ônibus e dormi logo, para aliviar os efeitos do vinho da véspera.

Cheguei quase dez da noite, correndo para não perder a Garota do Fantástico e os gols do domingo. Mas nem vi nada. Fiquei sabendo que o Bigode tinha perdido a cabeça e brigado com a menina quando ela não quis nada com ele. O Zé e o César tiveram de segurá-lo, mas mesmo assim ele deu um soco na pobre e quebrou dois dentes dela. O irmão da menina apareceu e deu três facadas no César, que não tinha nada a ver com nada, ainda bem que o Zé socorreu ele a tempo. O Bigode quebrou o violão na cabeça do irmão da moça pra poder fugir e ninguém soube dele.

Não soube mais ou menos. Uma semana depois recebi uma carta dele, pedindo pra catar as coisas dele e encaixotar. Ele tinha pouca coisa, coube tudo numa bolsa e numa caixa de papelão. encontrei com ele longe da pensão. Ele tinha saído do emprego também, com medo do cara ou a polícia irem procurar por ele lá. Já tinha conseguido serviço como ajudante de motorista de caminhão e tava indo para Aracaju no dia seguinte. Só queria mesmo pegar as tralhas e mandar um trocado pra dona da pensão, pra fechar o mês e não sair devendo.

Ele perguntou dos outros dois. Quando eu disse que todo mundo já estava bem, me deu um abraço e saiu, sem falar mais nada. Nunca mais soube dele. O César nem voltou para a pensão do hospital, voltou direto para Minas. O Zé Eduardo também não ficou muito mais tempo ali. Conseguiu vaga numa pensão mais perto da faculdade e passou a trabalhar num hospital da prefeitura. Eu ainda fiquei até o final do ano, quando terminei a faculdade e consegui uma promoção no escritório. Aluguei uma quitinete no centro e também não voltei mais na pensão.

Essa semana eu estava no pronto socorro do hospital, pegando uns exames da minha sogra e vi o Zé passando, dar plantão ali. Ele não me reconheceu, estou mudado, bem mudado, mas ele continua o mesmo. Tive vontade de ir falar com ele, mas desisti, se dói em mim que não vi nada, imagina pra ele, que teve de acudir o César? Deixei ele passar, peguei os exames, entrei no carro e fui embora. Tem hora que é bom esquecer das coisas.

17.9.09

Coração confiante

Esse meu coração bobo
sempre tão mau conselheiro
que se compra com sorrisos
sempre confiando no alheio

Meu coração tão pobrezinho
que se mete em cada uma
sempre em busca de alguém
sempre em busca de carinho

Coracão, será que um dia
você ainda vai aprender
que uns nascem pra sorrir
que ninguém quer sofrer

Coração, meu bom amigo
não espere pelos outros
não seja cruel comigo
me deixe um pouco solto


O que será que vai render dessas letras?

14.9.09

A Festa - Parte XXII - Final


- Você que atirou nela, Ana, você! Você e toda essa sua loucura! Me entrega a arma, vamos chamar uma ambulância, tem um corpo de bombeiros aqui perto, daqui a pouco eles estão aqui, ela tá viva, ouviu o Zeca? Se nada acontecer com ela a gente diz que foi só um acidente e tudo contiuna bem, me entrega a arma aqui, vai?
Ana recuava até a porta. Ao lado da porta estava pendurada uma mochila, ela pegou-a e pendurou-a em um dos ombros, ainda com a arma apontada para Gabriel. Com a mão livre ela destrancou a porta - Não, Bel, eu não vou entregar a arma porra nenhuma, tá sabendo, eu vou embora, aí sim, vocês ligam e pedem ajuda, tomara que dê tempo. E é mentira que vocês vão dizer que foi um acidente, vão é dizer que atirei nela de propósito... eu vou fugir, ninguém vai me achar, tá me ouvindo, ninguém! E isso aqui é pra você, seu filho da puta! - Ela disparou novamente, agora conta Gabriel, que caiu para trás com a força do impacto, enquanto ela fugia, trancando a porta por fora.
Vendo os dois caídos, Zeca ligou para a polícia e para o corpo de bombeiros, a voz trêmula pedindo socorro. Nem bem havia terminado a ligação e Gabriel começava a levantar-se, uma das mãos segurando o ombro encharcado de sangue...
- Caramba... ahhh.... isso dói, parece que meu ombro tá pegando fogo - ele arrastou-se até Clara - Clara, por favor, té me ouvindo? Onde tá o Edu, por favor. A moça entreabriu os olhos, deu um sorriso débil e apontou para o baú, onde estavam apoiadas as comidas e bebidas. Gabriel levantou-se e com uma mão só puxou a toalha derrubando tudo no chão. Mel e Dani acudiram Clara enquanto Zeca e Bruno correram para ajudá-lo a levantar a tampa do móvel. Dentro, inconsciente, amarrado e com um pedaço de silvertape cobrindo a boca, Edu. Um enorme hematoma na têmpora direita justificava o sono profundo em que o rapaz se encontrava. A campainha tocou com a chegada do corpo de bombeiros e Gabriel aumentou o time dos desacordados, desabando no chão.

XXXXXX

Gabriel abriu os olhos, o teto branco era estranho a ele. Ainda com a vista turva viu o pai e Melissa de um lado da cama. Do outro, Zeca e Dani.
- O que aconteceu? Fiquei quanto tempo dormindo? Como estão todos? E a Clara?
- Cê dormiu quase um dia e meio - A voz de Zeca parecia vir de muito longe - mas agora tá tudo bem, a bala só pegou de raspão no teu ombro, a merda é que tu perdeu muito sangue. Tá todo mundo bem, meio assustado ainda. Todo mundo teve de ir na delegacia prestar depoimento... por sorte eu consegui jogar os flagrante tudo na privada antes dos caras chegarem...
Melissa interrompeu o rapaz - Péra, Zeca, não é isso que ele quer saber. Bel, tá tudo entrando nos eixos. Clarinha está bem, perdeu muito sangue também, os médicos disseram que ela também teve um colapso nervoso, mas que tá se recuperando bem e que vai ficar tudo beleza. O Edu está bem também. Depois a Clara contou que elas iriam deixar um bilhete pra alguém ir lá tirar ele do baú. A pancada que a Ana deu nele fez uma, uma... como é que é, seu Valdir?
- Concussão, minha filha, concussão...
- Isso, uma concussão, mas que não foi nada sério. Ele resolveu dar queixa só da Ana, ele viu que a Clara era só um joguete nas mãos daquela maluca.
A voz de Gabriel saiu tremida - E ela?
- Ahhh, Bel, ninguém sabe dela. Ela sumiu no mundo. Quando a polícia conseguiu correr atrás dela, ela já tava longe. O Zeca recebeu um telefonema dela, dizendo que a gente nunca mais a veria. A polícia conseguiu rastrear a ligação, era numa rodoviária do interior, quando ligaram pra polícia de lá, nem acharam ela, uma testemunha disse que a viu embarcando num ônibus para Belo Horizonte, mas ninguém sabe onde ela pode ter saltado. A Clara comentou que ela tinha raspado as contas dela antes de viajar. Acho que ela sumiu no mundo de vez... pelo menos a gente pode ficar tranqüilo, acho que ela não voltar nunca mais.
- É... assim espero... gente... é tão bom ver vocês, mas... será que eu posso descansar mais um pouco, ainda tou com muito sono...
Valdir acariciou os cabelos do filho - Sim, Bel... qualquer coisa, eu tou ali na poltrona... só me chamar... o pessoal vai dar um pulo em casa pra descansar um pouco... mas eu vou ficar aqui.
- Obrigado, pai... obrigado pessoal... amanhã continuamos.... E fechou os olhos para sonhar acordado... não sabia porque, mas sentia uma vontade imensa de jogar tudo para o alto e viajar para a Bolívia...

7.9.09

Festa - Parte XXI


Ana deu um passo para trás, desarmada com a reação da amiga. Ela nunca havia levantado a voz pra ninguém, como é que se atrevia a gritar com ela agora?
- Como é que é? Agora eu sou louca? - Ana parou de apontar a arma para Gabriel e se voltou para Clara - Agora eu sou louca, não é? Muito bem! Quem é que adorava minhas idéias? Quem é que me apoiava em tudo que eu propunha? Quem concordava comigo enquanto gemia pra mim na cama? Eu que sou louca? Você que é uma louca! Você que não sabe o que quer! Adorava o Edu, achava ele o máximo, dizia que ele te fazia feliz, aí, de uma hora pra outra, vem chorando pro meu lado, pedindo ajuda, pedindo arrego.. quem é que enxugou seu choro? Quem te ensinou a sorrir de novo? Quem é que fez você voltar a sentir prazer, tesão, gosto pela vida? E agora você me chama de louca? Você que é louca, que não soube aproveitar o mundo que eu podia oferecer pra você!
O choro de Clara parecia ter secado, ela estava de pé, encarando Ana, sem ligar para a arma que a outra, possessa, havia momentaneamente baixado.
- Sim, você é louca! Completamente louca! Doida! Desequilibrada! - O dedo em riste de Clara intimidava Ana - Eu posso ser uma boba, uma fraca, posso até ser louca, mas louca de ter me envolvido com alguém como você! Você é louca, você é má! Você é um monstro Ana! Um monstro! Um monstro!
A mão com o revólver atingiu o rosto de Clara com violência, calando-a. A garota caiu no chão, um filete de sangue brotando do canto da boca. Ana aproximou-se da garota caída, segurando-a pelos cabelos com a mão livre.
- Calaboca! Fica quieta! Você não entende nada, você nunca entendeu nada! Tudo o que eu fiz foi por você. Por você! Pra ver se você se animava, se você vivia de verdade! Você não entende! Você merecia mesmo um pulha como o Edu!
- Não fala nele! Ele não presta, mas é melhor que você! E você fez com que ele não possa mais ser meu!
- Ele nunca foi seu, ele só estava com você porque é gostosinha! Mas é só aparecer uma melhor que você que ele te larga, ele teve o que mereceu, Clarinha, ele mereceu.
Gabriel entrou na conversa - O que vocês fizeram com ele, não me digam que...
- Acha que a gente fez o que com aquele canalha, Bel? Acha que matamos ele? Ou que mutilamos? O que acha que fizemos?
Gabriel havia recuperado a calma, e foi aproximando-se de Ana - Não sei... e tenho até medo de imaginar o que vocês fizeram.
Ana aproximou-se dele, balançando a arma, ameaçadoramente - Então quer dizer q o senhor tem medinho, não é? Tá com medo de mim, é? Acho que você tem é muito medo de mim, e nem é porque tou com o revólver na mão, sabia? - Ela começou a passar a arma pelo rosto de Gabriel, que controlou-se e não desgrudou seus olhos dos dela - Se fazendo de fortinho, não é? Hummm... mas deve estar se borrando de medo...SEU MERDA!!!
Desligada provocando Gabriel, Ana não viu Clara levantar-se e se jogar sobre ela, uma das mãos segurando seus cabelos e outra, a arma. as duas caíram emboladas, lutando pelo revólver. Gabriel e Zeca correram, tentavam separar as duas e arrancar a arma da mão de Ana quando um estampido soou. Os dois rapazes puseram-se de pé, assustados, as duas moças ainda abraçadas.
O tiro parecia ainda ecoar pela sala quando Clara levantou-se, a boca entreaberta, ainda com o fio de sangue no canto dos lábios. Atônitos, os amigos esperavam para ver quem tinha sido atingido. A garota ficou de joelhos e, subitamente, caiu para o lado. Uma poça de sangue escorrendo debaixo dela por sobre o piso. Ainda com o revólver na mão, Ana arrastou-se para perto da amiga, gritando, assustada com o que fizera - Sua doida! Olha o que você fez, me perdoa, Clara, me perdoa! - Ela abraçou a moça, chorando, beijando-lhe o rosto, suas lágrimas se misturando com o choro da outra.
Gabriel tentou aproveitar-se da comoção da garota e tentou tirar-lhe o revólver da mão. Ana deu um pulo para trás e voltou a apontar a arma para o rapaz - Viu? Isso é culpa tua, seu merda... se você não fosse tão curioso nada disso teria acontecido e a Clarinha ainda estaria conosco. Você matou a Clara, você matou a Clara!!!
Zeca debruçara-se sobre a moça caída, tentando ouvir-lhe a respiração - Gente, ela tá viva, ainda tá respirando, tá fraquinho, mas ela ainda tá viva! Chama ajuda, gente! Chama ajuda!

5.8.09

A Festa - Parte XX



- Abaixa isso, Ana... abaixa isso... assim cê vai acabar machucando alguém - apesar da arma apontada para si, a voz de Gabriel continuava calma - o silêncio da sala só era quebrado pelos soluços de Clara - sabe que não vai dar certo isso... me dá a arma aqui e vamos conversar...
- Não vou conversar porra nenhuma, você estragou tudo... tudo, tudo... você cê acha muito espertinho, não é? Podia ter bancado o burrinho, só desta vez... e eu nunca ia me cansar de você, seu pateta...
- Como assim? - Mel tentou se levantar de seu estado de embriaguez para enfrentar Ana, que virou a arma para a moça, que voltou a se sentar.
- Assim que você não é mulher suficiente pra ele, entendeu? Eu sou... eu sou melhor que você... porque acha que falei pro Zeca levar você pra área fumar um? Pra ver se o Gabriel brigava por você ter fumado e eu pode me aproveitar... Isso se o Zeca, que é um fura-olho da porra não tentasse se aproveitar de você... se é que não tentou... ele não perde oportunidade pra sarrar em toda mulher que aparece, patético!
Agora ela não estava mais apontando a arma para ninguém, o álcool, a excitação de estar com a situação sob seu controle abaixavam sua guarda. Mas suas declarações faziam mais efeito que o revólver em sua mão... elas sim estavam deixando todos plantados em seus lugares.
- E que casalzinho ridículo é você e o Bruno, Dani... ele só se preocupa com o trabalho e você come feito uma vaca... nem repara que está feia e gorda... daqui a pouco o Bruno pára de trabalhar um pouco e descobre que tá trepando com uma porca gorda... isso se o trabalho dele deixar ele trepar com alguém... - ela se voltou então para Clara, que chorava encolhida em posição fetal num canto - E você, Clarinha, ai Clarinha, tão gostosinha, mas tão infantil e boba... me cansei de você também, e mais cedo do que eu imaginava... fico pensando em como seria se eu tivesse me cansado de você na viagem... será que eu te largaria pra trás, chorando seu choro insosso num quarto de hotel, enquanto eu seguiria uma vida cheia de sabor?
Clara levantou os olhos, vermelhos de tanto chorar, gritando enquanto as lágrimas transfiguravam seu rostinho de boneca.
- Você tá louca! Você é louca! Você é louca!!!!

21.7.09

A Festa - Parte XIX


- Depende de quem apanha... dependendo, posso não querer parar de bater... e eu bato pesado... você fez judô, eu fiz boxe tailandês, vai encarar?
A voz de Gabriel saiu sibilante - Sabe que eu não tenho medo de encarar nada, não é? - baixou mais ainda o tom - Até te conto, pra te deixar beeem com vontade, eu tava de folga hoje de tarde, se eu soubesse que estaria tão feliz, tinha aparecido aqui mais cedo, pra te ajudar a arrumar a casa e a desarrumar o que quisesse... tava sozinha com Clarinha?
- Não... tínhamos companhia...
- E a companhia deu conta do recado.. digamos que começou bem, mas... - Gabriel cortou-a abruptamente, jogando no ar a isca:
- Terminou mal, não foi? Quem refugou, o visitante ou você?
- E eu sou mulher de refugar , Bel? Ela estava bem próxima dele novamente, os colegas pareciam hipnotizados pelos dois, ninguém esboçava reação, meros espectadores do conflito do casal. A única exceção era Clara, que da janela, chorava em silêncio, despercebida dos outros.
- Acho que não, mas acho que você seria capaz de ultrapassar limites. Ainda mais se houvesse alguma vontade de ultrapassar esses limites.
- Você é bem espertinho, Bel... Seria bom se tivesse sido você aqui de tarde... poderia ter sido bem mais divertido... não seria igual, mas seria divertido...
Gabriel resolveu arriscar - Porque? Foi o Edu que não deu conta do recado?
- Pára!!!! Pára com isso! Pelamordedeus, pára com isso, Ana, por favor! Pára!!!! - Clara havia caído de joelhos no canto da sala, o rosto escondido nas mãos, num choro convulsivo. Gabriel segurou Ana pelo pulso, impedindo-a de socorrer a menina.
- O que que tá acontecendo aqui???
O choro de Clara despertou os outros jovens do estado de torpor em que estavam. Mel, Dani e Bruno acudiram Clara, enquanto Zeca correu até Gabriel e Ana, fazendo o rapaz soltar a moça. - Tá maluco, Bel, que que cê tá fazendo? Solta a Ana... ela vai dizer que não é nada, deve ser nervosismo da Clarinha, não é, Ana, Ana, que que é isso!!!
A garota correu até um móvel e tirou de uma gaveta a arma que ela e Clara haviam comprado, agora apontava-a para Gabriel.
- Bel, você é muito inteligente, mas é muito burro... podia ter a mim e à Clara... sempre que quisesse... precisava ser tão curioso assim, porra?

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13.7.09

A Festa - Parte XVII

O silêncio quando chegaram á sala era opressor. Enquanto Ana e Clara olhavam-se de soslaio, Gabriel estava extremamente calmo. Calado, ele foi até o isopor onde estavam as cervejas e tirou uma. O barulho do lacre sendo rompido soou como um estampido na sala, de tão quietos estavam eles. O rapaz levou a bebida aos lábios, tomando um grande gole. Quando terminou, contemplou os amigos, Melissa, Zeca, Bruno e Dani estavam sentados no sofá, com cara de quem não estava entendendo nada, em parte porque estavam bêbados, em parte porque realmente nada entendiam. Clara estava olhando pela janela, nem notando que a vista era dos fundos do prédio ao lado. Ana cortava um sanduíche na mesa, mas ele tinha certeza de que ela gostaria de estar cortando outra coisa. A menina estava se mostrando completamente descontrolada. Algo o alertava para saber como lidar com ela. Alguma coisa ela estava escondendo, Clara estava envolvida, o descontrole dela era mais que uma prova. Era algo envolvendo Edu, o namorado da menina, um sujeito revoltante, que merecia uma lição... só que... o que elas haviam feito com ele? Isso ele não sabia, mas sabia que algo tinha acontecido entre os três. Deu mais um gole na cerveja, pra tomar coragem e resolveu enfrentar as feras, estava começando a ficar tão divertido quanto perigoso provocar Ana.
- Aninha... posso ficar com a outra metade desse sanduíche? Acho que não vai se importar de dividi-lo comigo, não é? - Ela estendeu o pão recheado para ele, sem palavra, os olhos duros, ainda sem saber o que o rapaz estava tramando - que bom... hummm, azeitonas... adoro, sabia? Que bom que você dividiu comigo, acho que era o último... bom que sabe dividir as coisas... eu gosto disso... também sou bom em dividir... não ligo de repartir o que como, não é, Mel? Ele estava andando em círculos pela sala, magnetizando o olhar dos colegas, o sanduíche numa mão, a lata de cerveja na outra, olhando para o alto, como se divagasse - Eu não me importo de dividir... não sou apegado... gosto de gente que não se apega... você não parece ser muito apegada, Aninha, tou certo? Acho você capaz de dividir... desde que seja algo de sua iniciativa, estou certo?
- Onde cê tá querendo chegar, Bel?
- Lugar nenhum, lugar nenhum... só estou curioso de como reagiria se alguém viesse te pedir para dividir algo que você julga de tua inteira propriedade... mesmo que não seja?
- Mas hein? Como assim? Não tou entendendo nada... Tá ficando maluco?
- Acho que sim, estou divagando... mas, sabe como é, né? Pergunta pra Mel, eu fico assim, meio filosófico, sem falar coisa com coisa quando eu bebo... eu bebo e sou capaz de cada coisa... acho que até de brigar ou machucar alguém... - deixou a frase soando só pra confirmar, Clara se voltou num pulo, cravando nele os olhos marejados de lágrimas. Ficou com pena da menina e completou - nem que seja falando coisas sem pensar... isso machuca também, né?
Ana retomou a postura de dona da casa e veio até ele - Você se magoa com palavras?
- Normalmente não... ás vezes nem pancadas me machucam... principalmente se a pessoa souber bater... aí, nem tem problema... já fiz judô, suporto bem a dor...
- Interessante isso... vai que eu gosto de bater...
Ana aproveitava o torpor de Mel para cantar o namorado dela descaradamente, era isso que Gabriel queria, autoconfiança era inebriante, capaz de derrubar o mais forte... isso seria a ruína da menina. Agora ele iria ficar sabendo o que tinha acontecido. Soltou a frase num sussurro, o mais próximo que pôde da menina:
- E o quanto você seria capaz de bater pra se satisfazer?

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9.7.09

A Festa - Parte XVII

Zeca foi o primeiro a abrir a boca - Gente, que que tá acontecendo aqui, cês tão gritando, que que houve?
Ana refez-se e soltou Clara - Nada não, Zeca, a Clara que teve um acesso de nervosismo aqui... acho que ela viu uma barata - ao mesmo tempo que falava, o olhar fuzilava Gabriel, esperando a reação do outro, a voz sibilava feito uma cobra, pronta para o bote, caso o rapaz a desmentisse, mas a voz dele veio surpreendentemente calma.
- É, eu acho que ela se assustou com alguma coisa... até porque, até então, tava todo mundo rindo e brincando - deu dois passos e enlaçou a namorada - A Ana tava me contando os planos dela pra viagem, né? Tem hora que até dá vontade de ir junto de tão animada que ela tá, não é, Ana? - Melissa assentiu e ele continuou - Eu até gostaria, mas tenho um pouco de receio de uma viagem assim, no susto, acho que podem acontecer coisas, sabe?
- Deixa de ser agourento, Bel, o que é que pode acontecer? Era Dani, entrando na conversa. A cozinha começava a ficar claustrofóbica, principalmente pra Ana, Gabriel e Clara.
Gabriel deu um suspiro, soltou Melissa e deu alguns passos até a outra ponta do cômodo, como que se quisesse se afastar. ele sentia o olhar de Ana cravado em suas costas, como um punhal, e algo lhe dizia que ele não devia contrariá-la, não agora - Acho que estou sendo só medroso, Dani... Por que não vamos pra sala? Lá é menos quente e apertado que aqui - de propósito deixou-se ficar por último, e quando Ana passou por ele, acariciou-lhe o quadril, como que dando a ela a certeza de que estava a seu lado, feliz por ela não estar vendo seus olhos ou seu sorriso.

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6.7.09

A Festa - Parte XVI


Gabriel sentiu um arrepio com o olhar de Ana, mas manteve a calma e se aproximou de Clara, que estava completamente perdida entre os dois - Clarinha, e você? O que acha da idéia? Está pra viúva negra, que espera o final da transa pra se livrar do macho ou pra louva-a-deus, que o devora enquanto trepa?
Clara não respondeu, mas a palidez denunciava que algo estava errado ali, Ana veio em socorro da amiga - Nenhum dos dois... acho que a Clarinha está mais para... deixa eu ver... a concubina do harém.. já se imaginou como sultão, Bel?
- Não sei se tenho vocação pra tanto... apesar da idéia ser muito tentadora... você ia ser a rainha do sultão? Ia ser a rainha louca? Que mandou o sultão pra guilhotina num acesso de loucura?
- Depende do sultão, Bel... até agora só tive eunucos na minha mão, poucos mereceram uma segunda chance, a terceira, até hoje nenhum teve...
Gabriel continuou no jogo de Ana, acariciando o ombro da moça - Acho que vou ser a exceção... você precisa de alguém pra te pôr um freio... se continuar assim, você, ou melhor, vocês vão acabar magoando alguém... ou então... machucando... se é que já não machucaram...
Deixou propositalmente a última palavra soando para a ver qual a reação das duas, como imaginava, Ana não moveu um músculo, mas Clara se traiu - A gente não queria machucar ninguém! - ela apertou o braço do rapaz, os olhos marejados de lágrimas - Juro que a gente não queria...
- Calaboca, porra! - Ana puxou Clara pelo braço - fica quieta, caralho! - o olhar dela agora fuzilava Gabriel, que cruzara os braços e encostara-se na pia. Os gritos das duas atraíram a atenção dos outros jovens, que agora chegavam na cozinha...


lllustrator

29.6.09

A Festa - Parte XV

Clara estava entrando na cozinha quando viu Ana abraçada com Gabriel. Ficou parada, na penumbra do corredor, vendo a garota sussurrando algo para o rapaz, mas Ana falava tão baixo que ela não entendia o que a amiga falava. Assim como também não entendeu a mão de Gabriel na cintura dela e a dela ao redor dos ombros do moço. Sentiu um misto de nojo, excitação, raiva e repulsa pela amiga. Pigarreou e saiu da sombra, para sua surpresa, Ana não soltou Gabriel, apesar do rapaz ter tirado a mão da cintura dela e colocado sobre a pia.
- Oi Clarinha, que bom que você apareceu, vem aqui... me dá um abraço, querida? Acho que vamos ter companhia pra viagem - os olhos da moça faiscavam. Clara se aproximou, mas não a abraçou - Tá com ciuminho? Fica assim não... o Bel tem namorada... ainda, não é, Bel?
- Ana... cê tá maluca? A Melissa tá na sala... vai que é ela que aparece aqui, e não eu? Ia dar a maior merda, sua doida!
- Que ela aparecesse... nem ligo, tou convencendo o Bel de viajar com a gente...vai ser bom ter um homem de verdade conosco...não acha que ele é bom, Clarinha? Melhor que aquele mané do seu ex... ainda bem que não vamos mais ter de encontrar com aquele bosta... bem melhor pra gente, não é, querida?
Clara estava pasma, Gabriel viu como a moça empalideceu quando Ana tocou no nome de Edu. parecia que agora algo estava se encaixando. As duas haviam aprontado alguma com ele... só podia ser isso, ele resolveu arriscar... - E se eu não der conta de vocês duas, Ana... tenho uma segunda chance? Ou vai me colocar porta afora?
A moça riu, maldosamente - Quem sabe te dou uma segunda chance... mas não sei se rola uma terceira... tem de trabalhar direito... senão roda... vai pra vala - a gargalhada veio junto com um brilho demoníaco nos olhos, Gabriel resolveu arriscar mais uma:
- Acho que cê tem genes desses insetos... onde a fêmea devora o macho depois da trepada... tem uma que come o macho durante a foda... pra garantir que ele não fecunde outra... e você, Ana?
- Não sei... mas a idéia é ótima - os olhos dela faiscavam - a primeira chega a ser até previsível... mas a segunda é muito excitante...

Illustrator, sobre foto corbis.com

19.6.09

A Festa - Parte XIV

Gabriel estava realmente intrigado com as atitudes de Ana. O fato da menina estar lhe provocando daquela forma só poderia ser o indício de que havia algo a ser escondido. Puxou pela memória, ela sempre o provocara, mas nunca tão abertamente. Fazia até sentido se ela realmente tivesse algum interesse nele. Mas... se fosse só isso, por que ela não tinha feito isso antes? Talvez a única maneira de descobrir fosse dando corda a ela.
- Então... vai que hoje eu armo uma cena com a Mel, arrumo uma mochila de roupa e sumo com vocês às duas amanhã para não sei onde. Deixo emprego, namorada, família, tudo pra trás pra te seguir, e aí? O que tem em mente?
- Tudo, gatinho! Tudo! - os olhos da menina brilharam - a gente pode fazer tudo... eu e você podemos fazer tudo, podemos ganhar muito dinheiro, ou levar uma vida nômade, pulando de lugar em lugar...
- Humm, uma aventura seria interessante... mas... como arrumaríamos dinheiro, ia deixar que eu fosse seu cafetão pra descolar algum?
Ela riu maliciosamente, rebolando até o rapaz e enlaçando-o com um braço, a outra mão fazendo um carinho no peito dele - E porque não, bonitão? Só descolar alguns trouxas pra depenar depois...
Gabriel acariciou a cintura da garota - Que bom que temos alguém aqui que não tem medo de coisa errada... e se algum otário desses reagir, a gente faz o que? Amarra, espanca, mata?
Ela aproximou-se da orelha dele e sussurrou, na voz mais sensual que ele imaginara algum dia ouvir - Podemos fazer isso tudo... não acha excitante?

Illustrator, sobre uma foto do corbis.com

17.6.09

A Festa - Parte XIII

- É? Acha que ele não era bom?
Ana deu as costas, apoiou-se na pia, provocando - Nem um pouco... muito fraco... muita conversa, pouca ação - Virou-se para o rapaz, empoleirando-se na pia e abrindo um pouco as pernas - mas... vem cá? Por que tá perguntando tanto dele? Tá querendo mudar de lado, é?
- Não, Aninha... apenas tou achando estranho ele não estar aqui... agora cê vem falando que ele é fraco... acho que cê deu um cansaço nele, deixou ele mortinho, mortinho - ele não tirava os olhos dos olhos dela, querendo descobrir o que a moça encobria.
- Você é inteligente, Bel... mas eu sou mais - ela pulou da pia, colou o corpo no do rapaz - você sabe das coisas, capta no ar. Só que nem tudo. Você ainda precisa de algo pra me acompanhar. Mas você é o melhor dessa turma. Você que tinha de estar indo amanhã comigo. A Clara é legal, mas a sua companhia seria bem mais interessante... talvez nós três... ainda dá tempo... larga tudo, deixa a Mel, vem comigo - Ela passava de leve a mão no corpo do rapaz, o queixo colado ao peito dele.
- Péra... cê tá me cantando, é isso, é? Cê ficou louca? - por mais que ele quisesse se desvencilhar dela, não conseguia, além de ser uma mulher muito bonita e magnética, ele queria saber o que de errado estava acontecendo, e a única maneira, ela ver onde Ana queria chegar.
- Não estou louca não, Bel, mas você é capaz de me acompanhar, você é o único cara que encontrei que é capaz de pensar tão rápido quanto eu. Queria alguém assim comigo, alguém que pudesse me desafiar, não acho ninguém páreo pra mim. Olha lá na sala, um bando de idiotas. Aposto que já estão lá, fumando maconha, falando merda. A sua mulherzinha, tão submissa a você, mas fuma escondido, pra agradar os outros... eu que mandei o Zeca trazer os baseados, sabia que ela não ia resistir e eu ia ter um tempinho aqui com você. Bel... vem comigo e com a Clara, a gente pode se divertir um pouco... depois eu e você, sei lá... a gente pode fazer cada coisa que você nem imagina...

Illustrator, sobre uma foto do corbis.com

2.6.09

A festa - parte XII


Gabriel não sabia bem o motivo, mas ir com Ana até a cozinha lhe parecia extremamente arriscado. Não conseguia entender a fúria nos olhos dela quando ele citara ela, Clara e Edu no meio da frase. Tinha algo errado ali, algo muito errado, ele só não conseguia descobrir o que era. O apartamento de Ana era um apartamento antigo, havia sido dos avós dela, num prédio pequeno, sem elevador, duas unidades por andar, mas o avô de Ana comprara o outro apartamento e fizera um só, imenso. O salão onde os amigos estavam era na frente do edifício, gigantesco pela fusão das duas salas de estar anteriores. Os quartos e banheiro ficavam no meio e a cozinha e a área de serviço se interligavam no último andar da construção. Havia uma distância considerável entre a festa e para onde ela o estava levando. Gabriel notou que, quanto mais eles se distanciavam dos outros, mais ela rebolava na frente dele. Seria apenas impressão sua ou ela o estava provocando? A danada sabia como o excitava. Chegaram na cozinha, ela se encostou lânguida na pia e olhou pra ele.
- Chega mais perto de mim... não vou te morder não... não agora. Tá com medo de mim?
Ele se aproximou dela, olhos fixos nos da moça - Não, não tenho medo de você não, Aninha... só tou achando estranho o Edu não estar aqui, ele não é o namorado da Clara?
Ele sentiu uma nuvem passando rapidamente pelos olhos da garota, até eles voltarem a ser manhosos e provocativos - Não... se você quer saber, ele saiu da vida, dela, ele não prestava, você sabe disso, não sabe? Sei que você também não gostava dele... não foi você que quase bateu nele uma vez?
- Sim... fui eu mesmo... incrível, não é? Eu, o mais calmo da turma... você estava lá, porque pergunta? Viu o que ele tava fazendo com a Clara, se eu não entro no meio ele ia acabar batendo nela de verdade... até comentei com a Melissa depois que era loucura dela continuar com ele, iam acabar se matando os dois.
Ana deu um sorriso malicioso - Será mesmo? Eu volto à pergunta que fiz na sala, será mesmo que ele seria capaz de matar a Clara? Ou a Clara de matá-lo?
- Já te disse, Aninha, vagabundo é capaz de coisas que até Deus duvida, ainda mais no calor da hora, conheço histórias assim, de gente que, num acesso de raiva, matou algum amigo, parente, sem querer.
- Sei... mas, vem cá... foi bonito aquilo de você ter protegido a Clara aquela vez... - ela se chegou mais perto do rapaz, passando a mão em seu ombro - eu bem gostaria de ter um homem assim, que me protegesse, sabe?
- Você? Até parece... você ia querer um capacho... cê é muito independente pra ter um "homem pra te proteger" - o tom era sarcástico, mas estavam cada vez mais próximos um do outro, Gabriel sentia os pêlos do corpo se arrepiarem com o calor do corpo de Ana tão junto do dele - Que mulher é essa, meu Deus, pensou ele.
A voz dela era cada vez mais sensual - O que você quis dizer quando achava que eu não gostava dele com a Clara? Hein? Tá insinuando o quê? Que eu e ela temos um caso? Aposto que ficou doidinho imaginando eu e ela na cama quando pensou isso, não foi, seu safado? - Ela levou a mão à virilha dele, que recuou num pulo.
- O que cê tá fazendo, sua doida? - A voz dele saiu entre os dentes, mesmo sabendo da distância e do teor alcoólico em que estavam os outros convidados, ele não queria nenhum alarde para o que estava acontecendo.
- Só queria confirmar o que eu já imaginava... acho que a Melissa passa um sufoco com você, hein? Tenho certeza que dá conta de duas, até de três... não é como o Edu, aquele ali, não dá conta de ninguém...

Mão e photoshop


PS: Pedindo desculpas... eu havia errado as postagens, a real parte VII estava faltando... já corrigi o erro... desculpem mesmo.

1.6.09

A Festa - Parte XI

Ana voltou com a cerveja, apoiou-se no móvel ao lado de Gabriel, inclinando-se para o rapaz, o decote à mostra, sussurrando- Tá quietinho... criança quando tá quieta é porque tá aprontando alguma coisa...- Não acho que seja tanto assim... quem tá com cara de quem andou aprontando é você. Nunca te vi tão animada, tão excitada...- Não viu ainda porque não quer... - ela se levantou um pouco, passando a mão rapidamente pelo rosto do rapaz - acho que você sabe com quem tá lidando, não é - e piscou maliciosamente.- Acho que você podia se controlar um pouco mais... a Melissa tá aí.- Isso não te excita não? Algo proibido? Eu adoro coisas proibidas, coisas impossíveis, coisas condenáveis. Você também, eu acho... toda essa sua pose de contido... acho que você bate na Melissa quando transa com ela... acho que te dá tesão isso...- Quieta.! Não coloca ela nessa conversa... o que eu e ela fazemos não é da tua conta, Ana. - olhou por cima dos ombros da menina, já estava de pé, ao lado dela, cada vez mais perto, Melissa e os outros convidados estavam entretidos num papo animado, ele e Ana pareciam estar em outro ambiente, de tão longe as ações se desenrolavam - acho que cê já tá indo longe demais.Ela passou de leve a mão na virilha do rapaz, que teve de se controlar para não dar um pulo de espanto. - Humm... acho que nossa conversinha já fez efeito... gosto de homem assim, que fica pronto rápido... um macho escoteiro... 'sempre alerta'. Ela estava cada vez mais próxima dele, ia acabar dando problema aquilo.Ele a afastou suavemente - calma, Aninha... não coloca a carroça na frente dos bois, não... sabe de uma coisa, acho que você é o motivo do Edu não estar aqui com a gente agora... algo me diz que ele não veio porque cê aprontou uma das tuas pra cima dele... acho que você não gostava dele com a Clara, não é is-... - ele nem terminou a pergunta e os olhos dela já estavam fuzilando-o, por um breve segundo... até que ela controlou-se, o semblante passando da fúria para a malícia.- Digamos que você tem alguma razão... mas... porque não vem até a cozinha comigo... preciso de alguém pra carregar peso...

Illustrator e Photoshop, testando um tutorial... foto: www.domai.com

29.4.09

A Festa - Parte X

Gabriel sentara-se sozinho num canto da sala, fingindo folhear um livro antigo enquanto os amigos contavam piadas do outro lado do cômodo. Alguma coisa estava muito estranha. Ele sabia que Clara era impressionável, cansara de implicar com a amiga, mas ele nunca ficara tão nervosa. E Edu? Não gostava do namorado de Clara, mas sabia que ele não perdia uma festa por nada, cansara de ouvir a amiga reclamando que ele já a deixara em casa e saíra em seguida pra uma festa que não queria que ele fosse. Ainda mais com a namorada indo passar uns meses fora, como é que ele perderia uma dessas? Ana Também não estava normal... aliás... quando é que ele estava normal? Nunca conseguira prever um passo sequer dela. Muito louca, muito impulsiva. Ela sabia o quanto ele não gostava que Melissa fumasse, e na primeira oportunidade, dera um jeito de oferecfer maconha para a garota. Ainda por cima ficara na sala com ele, provocando-o, ela que sempre o mantivera à distância... talvez por ele ser o único da turma que a enfrentava. Alguma coisa estava fora da ordem, ele ainda não sabia o que era... mas iria descobrir.
Ana e Clara voltaram a sala, a primeira continuava eufórica, sorridente, já Clara estava um pouco amuada, notou uma marca vermelha no pulso da menina, algo forte parecia ter acontecido na cozinha, Será que elas tinham um caso e Edu tinha descoberto e terminado tudo? Isso explicaria a ausência dele. Engraçado... de Ana ele esperaria algo assim, mas não de Clara. Imaginou como seriam as duas juntas e não pôde reprimir uma ereção, colocou o livro sobre o colo para que ninguém reparasse e pediu mais uma cerveja a Ana, só para vê-la rebolando em sua direção.

20.4.09

A Festa - Parte IX



Ana olhou para os outros convidados enquanto Clara ia pra cozinha.
- Tá nervosa com a viagem, a boba. Vou lá falar com ela... sabe como é a Clarinha, muito impressionável. Pra vocês verem, ela acha que a carne que come nasce já embalada numa árvore, que ninguém mata os bichinhos.
Encontrou a amiga encostada na parede, o rosto escondido no braço. Não se segurou e puxou a moça com violência pelo braço.
- Ficou louca, é? - os olhos de Ana estavam injetados de sangue, e Clara se encolheu de encontro à parede, a amiga crescendo para cima dela, os dentes cerrados, a voz baixa, intimidadora - você vai ficar quietinha, ouviu? Fica quietinha, sabe que sou eu que mando aqui, não sabe? - ela assentiu, os olhos marejados, fixos nos de Ana - se você estragar nosso plano, já jabe o que vai te acontecer, né, piranha? Agora vamos voltar lá para a sala, cê vai segurar tua onda, vou falar o que eu quiser e você vai achar tudo lindo e maravilhoso, entendeu?
Clara assentiu num fiapo de voz. Então Ana se aproximou um pouco mais, uma das mãos ainda segurando o pulso da amiga, enquanto a outra acariciava um dos seios dela. A boca muito próxima do rosto da outra, a língua tocando a pele dela, vagarosamente traçando uma linha do pescoço ao lóbulo da orelha, quando enfim falou:
- Assim que eu gosto, delícia, assim que eu gosto. Engole o choro e volta pra sala - deu um beijo na ponta da orelha da amiga e saiu rebolando, com uma sacola de cervejas e um pacote de biscoitos nas mãos.

6.4.09

A Festa - Parte VIII

Nervosa, Clara levantou-se e entrou entre Gabriel e Ana, fingindo normalidade, enquanto pegava um sanduíche na mesa.
- Como vocês estão mórbidos, só falando de sangue, de morte, de coisa ruim... Gente, vamos viajar amanhã!
- Também acho melhor mudar de assunto... - Gabriel deu mais um gole na cerveja, enquanto não conseguia disfarçar que estava olhando para a bunda de Ana, que se afastava, rumo à cozinha, quando a moça virou no corredor, ele voltou a fitar Clara - em mudança de assunto, cadê o Edu? Era pra ele já ter chegado...
- Merda! - Ele nem bem tinha terminado a frase e ela deixara cair o sanduiche no chão.- Olha que merda que eu fiz! Ana!!! Traz as toalhas de papel, que eu derrubei manteiga no chão!
Gabriel abaixou-se e começou a limpar a sujeira enquanto Clara sentava-se de novo no sofá.
Melissa abraçou a amiga - Boba... ficou nervosa só porque derrubou o sanduíche no chão? Deixa disso, o Gabriel já está limpando, nem vai manchar o piso.
Zeca levantara-se para ajudar o amigo a limpar o chão. Levantando um pouco a toalha, para tirar um respingo de molho, viu a base do móvel que servia de mesa - Poxa, legal esse móvel, o que é?
- Um baú, coloquei ele no meio da sala porque é forte, imponente, grande. Essas coisas que impressionam. Esse baú ficava na casa de meus avós, sabiam que me escondi várias vezes vezes aí dentro? Uma vez meus pais ficaram loucos, acharam que eu tinha morrido, entrei aí e acabei dormindo no meio de uns livros que estavam aí dentro, só me acharam cinco ou seis horas depois. Acho que daria pra esconder um defunto aí dentro.
- Que defunto o quê?! Tá maluca? Clara levantou-se de um pulo e segurou a amiga pelo braço, visivelmente transtornada. - Voltando nesse assunto de defunto, de sangue? Já deu, né? Vou lá na cozinha pegar mais bebida.

27.3.09

A Festa - Parte VII



Gabriel passou por trás de Ana, pegando outra cerveja no isopor, como se nada estivesse acontecendo.
- Depende muito, Aninha, a gente é capaz de coisas que até Deus duvida...
- Mesmo? Eu apostaria que você não é capaz de matar nada que sangre... só mata barata mesmo, e porque a Mel pede.
- Apostaria o que? - Ele deu uma risada e se chegou perto da menina - e será que estaria disposta a pagar?
- Claro! Sempre pago minhas apostas!!!
- Sinta-se em débito comigo.
- Como assim?
Os outros amigos, à exceção de Bruno, que sorria no canto da sala, estava hipnotizados pela discussão dos dois. Gabriel agora tinha tomado o controle da situação das mãos de Ana, e enchia vagarosamente um copo com cerveja.
- Como assim, Bel?
- Simples... essas mãos que estão agora, servindo cerveja, que te cumprimentaram mais cedo, já se sujaram de sangue, queridona.
- Não acredito.
- Pois acredite - ele se chegou perto da moça, o olhar de superioridade irritando a anfitriã - lembra que já contei que tenho família no interior? Pois então... todas as férias eu ia pra lá. Quando minha mãe não estava, meus tios me deixavam matar as galinhas, aprendi a matar cortando e torcendo o pescoço delas. E matei uma cabra pro jantar de Natal uma vez. E um leitão em outro ano. Foi divertido, nem me senti mal, afinal, eu ia comer aquela carne depois... A cabra nós chegamos até a tirar uma foto limpando o bicho, o Bruno viu lá em casa uma vez, pode confirmar com ele...
Ana fuzilou o rapaz no canto da sala com os olhos, como se ele fosse o verdadeiro culpado por Gabriel ter lhe afrontado. A raiva durou pouco, ela logo se recompôs... - Se é assim eu já matei bichos também... matei várias lagartixas com a espingarda de chumbinho de um primo uma vez - ela postou-se em frente a Gabriel, as mãos na cintura, desafiadora.
O rapaz não aceitou a provocação totalmente, e com calma, encheu novamente a mão de amendoins, enquanto dizia, pausadamente, o olhar de desdém fixo em Ana - Então podemos fazer uma confraria, uma confraria de assassinos, mas eu terei de ser o Grão-Mestre, já que os bichos que matei sangram mais do que os que você matou. A garota engoliu em seco e ruborizou, abriu a boca, prestes a falar, quando foi interrompida por Clara.
- Vocês não têm assunto melhor não?


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23.3.09

A Festa - Parte VI

- Bel, toma tua cerveja. E tem amendoins também.
- 'Brigado, Ana. Animada pra viagem? Cê fica quanto tempo mesmo?
- Muito, cara, estou maluca com a possibilidade de passar esse tempo fora, aprender espanhol... seis meses, passa rapidinho, cês nem vão sentir minha falta...
- Pode até ser que sim, pode ser que não, Aninha...
- Péra que vou ali atender à porta.
O rapaz ficou observando a moça sair, ela era extremamente provocante, louca, imprevisível. Além de linda. A gargalhada dela era linda também. deu mais um gole na cerveja quando ela entrou com mais um casal..
- Fala, Bel!
- Opa, beleza, Bruno. Oi, Dani.
- Mas como tem coisa gostosa aqui, Aninha!
- Sirva-se, Dani... vou na cozinha chamar o resto do pessoal.
- Que fartura, né? Bruno já estava montando um sanduíche de queijo e presunto enquanto Dani atacava os doces.
- É, mas sabe quando cê acha que tem algo de errado, só não sabe o quê? Como sair de casa achando que esqueceu alguma coisa, e só muito depois descobrir que o que ficou pra trás?
- Deixa de ser bobo... onde conseguiu a cerveja?
- Ana trouxe... ó ela aí de novo.
Atrás da anfitriã, Zeca, o outro convidado, trazia um isopor cheio de bebidas e gelo. Colocou-o sobre uma cadeira e trouxe uma lata de cerveja para os recém-chegados.
Clara e Melissa vinham logo após, rindo muito.
- Nossa... qual foi a piada? Quero rir também - disse Gabriel, enquanto abraçava a namorada e dava-lhe um beijo. Irritou-se eo sentir o hálito de maconha na menina, mas controlou-se, não era hora de reclamar e estragar a festa.
- A Clara, essa boba, fala tanta merda que é capaz de me matar de tanto rir.
- Falando em matar, vou matar o Sérgio, aquele féla tá com ums filmes meus há semanas e não entrega nem por nada.
- Que isso, será que você seria mesmo capaz de matar alguém, ainda mais um conhecido, Zeca? Acho que você não tem culhão pra isso...
Um silêncio pesado pairou pela sala, as bocas abertas à espera de petiscos e bebidas, olhos procurando-se uns aos outros. Mas o rapaz não deu muito tempo para a saia0-justa.
- Será? A gente é capaz de coisas que até deus duvida, Aninha...
- Eu sei... mas... - ela fez uma pausa, enquanto tomava um gole de espumante no gargalo, um fio da bebida descendo pelo pescoço até sumir entre os seios - você acha que alguém aqui dessa sala é capaz de matar alguém?
Foto: sxc.hu

18.3.09

A Festa - Parte V

- Boa noite!!! Gente, vocês capricharam na festa mesmo, hein? Quanta coisa!
Melissa e Gabriel entregaram as sacolas com cerveja para Clara e entraram no apartamento, espantados com a quantidade de comida sobre o móvel da sala.
- Precisava de isso tudo, Clarinha? - perguntou Melissa, enquanto enfiava um rolinho de queijo na boca, enquanto o namorado abria uma lata de cerveja e enchia a mão de amendoins.
- A gente só queria que todo mundo se lembrasse pra sempre dessa festa. Que o dia de hoje ficasse gravado pra sempre! - Ana entrou na sala, uma garrafa de vinho numa mão e um baseado enorme na outra. Ainda sem fumar, Mel?
- Tou sim... o Gabriel não gosta... aí eu parei de vez... nem tou sentindo falta, sabia.
Ana contornou a amiga, o namorado ainda estava às voltas com os amendoins da mesa. - Dando moral pra macho, sua bobinha? Quem te viu e quem te vê.. fica dando confiança, ele é legal, mas é homem, uma hora ele pisa na bola e você fica aí, reclamando do que não aproveitou. Zeca tá na cozinha, enrolando outro... vai lá... - ela deu um beliscão na bunda da amiga - enquanto isso distraio o Gabriel um pouco... só não abusa do Zeca, tá, danada!
Melissa saiu rápido da sala e ela se aproximou do namorado da amiga;
- Gostando, gato?
- Poxa... tem é coisa... vocês não economizaram, né?
- Não, gatinho... queríamos mesmo uma festa FODA, tá ligado, FO-DA!!!
- E tá mesmo... sabe da Mel?
- Tá na cozinha, ajudando a Ana - estendeu o cigarro de maconha para o rapaz - Quer?
- 'brigado, não curto... sabe que eu só bebo.
- Tou vendo que não tá dando trégua pros amendoins, vai usar isso tudo com a Mel? Ela agüenta o tranco? - Se aproximou do rapaz e acaricou-lhe o peito - Cê tem cara de quem trabalha bem....
- Ela tem de agüentar, né? Tá comigo... mas... porque pergunta isso?
Ela afastou-se, sorrindo.
- Por nada gatinho... só não gosto de desperdício... falando nisso... quer mais uma cerveja, a sua parece que acabou...
- Quero sim... traria mais amendoins também?
- Vou pensar se trago... pensar se vai valer a pena... - E saiu da sala, balançando a bunda o máximo possível.

4.3.09

A Festa - Parte IV

- Acha que fizemos tudo certo?
- Claro, bobinha... nos divertimos horrores e ele não vai nos aporrinhar por um bom tempo.
- Mas...
- Não tem mas nenhum! Você gostou, não gostou?
- É, gostei... foi diferente, excitante... muito bom... mas dá medo, né?
Ana leantou-se de um pulo, estava sem camisa e Clara não conseguia tirar os olhos dos seios que balançavam enquanto a amiga pulava no colchão.
- Muito, muito, muito excitante!! Nossa! Acho que nem se eu tivesse tomado uma dose cavalar de ecstasy eu estaria tão animada! Clara, tem noção do que a gente fez? Caramba, PUTAQUIUPARIU! A gente é foda, FODA!!!!
Ela se jogou na cama, pegou a amiga pelos cabelos e, após um beijo de leve nos lábios da menina, levantou-se novamente, pegando uma camisa sobre a mesa de cabeceira.
- Agora, vamos limpar tudo, arrumar tudo... temos três horas para deixar a casa sem nenhum vestígio do que aconteceu aqui... ninguém pode saber o que fizemos, não é, gatinha?

Photoshop, sobre foto sxc.hu

26.2.09

A Festa - Parte III

- Já arrumou suas malas?
- Hum-hum...
- Pegou o passaporte?
- Hum-hum...
- Disse em casa que vai pra Espanha comigo?
- Hum-hum...
- Chateada comigo?
- Tou não... tou apenas preocupada - A menina se virou, olhando para a amiga. - ele deve chegar a qualquer momento, né?
- Sim... já são quatro horas, mas ele sempre se atrasa.
- Duvido que ele se atrase hoje, ainda mais por conta do que prometemos a ele.
- Emoções fortes, que ele nunca vai se esquecer, proporcionadas por nós duas? - a gargalhada chegou a assustar Clara, ainda mais quando a amiga se apoiou nos cotovelos e aproximou o rosto do dela, com um olhar maníaco. - Ele vai ter emoções fortes, querida, as que ele está esperando, e outras que só eu e você sabemos que ele vai experimentar!
O ruído da campainha chamou a atenção das duas. Ainda com a expressão alterada, Ana se virou para Clara - Arruma a cama enquanto vou abrir a porta pra ele, deixa o revólver na gaveta da cabeceira... quero começar a brincadeira sozinha... só venha pra sala quando seu namorado começar a gemer...

Foto: sxc.hu + Photoshop

23.2.09

A Festa - Parte II



- Pegou a encomenda?
- Peguei sim, tem certeza de que quer continuar com isso?
- Óbvio, ou você acha que tirei isso da minha cabeça por nada? Claro que quero!
A mocinha abriu o moletom rosa e tirou o pacote, depositando-o sobre a mesa de centro. A amiga, excitada, pegou o embrulho e ficou com ele nas mãos, sem abri-lo.
- Chegou a ver como é?
- Não... queria ver junto com você...
A garota com o pacote na mão começou a desamarrar o barbante, depois de desenrolar três voltas de papel pardo, um brilhante revólver de cano curto veio à luz da sala. Ela empunhou-o, sentindo o peso, a ergonomia da empunhadura.
- Bum! Bum! - com uma gargalhada, imitou o barulho de tiro, apontando a arma para um retrato na estante. - Deve ser excitante demais atirar em alguém, não é? Quando eu era criança eu bem matei uma lagartixa com a espingarda de chumbinho de um primo, sabia? Tive de deixar aquele nojento me beijar pra ele deixar eu brincar com a espingarda. E ele ainda brigou comigo quando eu matei o bicho!
- Abaixa isso! Daqui a pouco você acaba atirando de verdade.
A moça se levantou, colocando o revólver no cós do short jeans. O contato da pele com o metal fez um arrepio gostoso percorrer sua espinha. Fazendo pose de bandido, com uma das mãos apoiada na coronha da arma, ela segurou a amiga pelo queixo.
- Estou armada, gatinha, vai fazer o que eu mandar, senão te furo todinha, tá ligada?
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18.2.09

A Festa - Parte I


- Bom, acho que você já sabe pra que isso serve, não é?
A mocinha sopesou o pacote na mão esquerda. O papel pardo enrolado com barbante era áspero. O homem à sua frente era baixinho e carrancudo, o bigode de pontas reviradas dava-lhe uma aparência cômica, mas ele não sorria, falando como se as palavras não quisessem sair de sua boca.
- Hum-huuum... Está carregada, não está?
- Está, mas não coloquei munição reserva. Até porque espero que não precise usá-la.
Ela colocou a arma dentro do bolso do casaco de moletom cor-de-rosa e se despediu. Também gostaria de não precisar usar o revólver, mas, de qualquer forma, atirar também poderia ser uma alternativa excitante.


Conto baseado no filme Festim Diabólico - Illustrator e Photoshop

15.2.09

A Fada e o besouro - Parte X

Ele se ajeitou na cadeira, quase que defensivamente e resolveu fazer a pergunta que o corroía por dentro desde que entrara naquela casa perfumada de jasmim e reminiscências.
- Mas... a senhora é considerada uma ativista, uma defensora de direitos, como é que vê...
Ela interrompeu-o, abruptamente, mas com doçura.
- Eu nunca pedi rótulos, querido. Uma vez me viram "casada" - ela mudou de tom ao citar o estado civil - e me rotularam. "Ela é isso!", aí escrevi um livro com algumas poesias de cunho erótico. Depois um romance cuja sexualidade da personagem principal era dúbio; Pronto! Os jornais estavam precisando daquilo naquele momento, alguém que levantasse uma bandeira. Com o perdão do trocadilho, me colocaram a contragosto um mastro na mão, e me fizeram desfraldar aquele pendão sem pedir minha opinião. Óbvio que me deslumbrei. Uma escritora jovem, de belas pernas, sendo entrevistada, os livros começando a vender muito por conta dessa exposição... achei que, para o bem de minha carreira não valeria a pena desmentir. Na época, esse amigo se divertiu muito com o fato, ele comentava, citando Fernando Pessoa: "Todo mundo achando que você é uma pessoa, e você aqui, comigo! Você é mais fingidora que o poeta!" - O fato de eu preferir algo não me faz ser uma ativista dessa causa. Por acaso você anda por aí com uma camiseta escrita "Eu gosto de brócolis e odeio alface"? Eu não! Eu não pedi para ser um "ícone", um referencial. Mas quiseram que eu fosse, no início foi divertido, depois até me chateei, só me perguntavam isso. Acabei ganhando fama de rabugenta uma época, depois tudo se acalmou. Existem as pessoas radicais, e se eu não fosse uma senhorinha, acho que elas me crucificariam ao saber do que te contei hoje. Vai escrever isso? Nada como uma pequena polêmica para tentar dar um pouco de emoção a uma senhora tranqüila, não acha?
- Mas é claro, achei uma história ótima!
- Fico feliz de ter lhe dado uma boa história... e sobre o que você veio fazer aqui, fique com uma declaração padrão - ela empostou a voz, como um locutor de rádio canastrão - Eu fiquei muito feliz com o prêmio, é uma prova de que a literatura brasileira continua viva e não fica a dever ao que vem sendo produzido no resto do mundo - e voltando à entonação maliciosa de quase toda a conversa - só reclamo que não tenha acontecido antes, se eu fosse mais nova, eu aproveitaria muito mais a fama, não acha?
Ele sorriu, satisfeito, e ela voltou a falar, ainda com malícia na voz.
- Que bom, fico feliz... mas agora você me daria licença? Uma certa pessoa vai vir aqui em casa hoje, para comemorarmos esse prêmio... e acho que ele não gostaria de ser visto comigo, nem eu com ele, não concorda?
O rapaz hesitou... ali poderia estar mais uma bomba, o complemento de uma história muito boa. Mas pensou melhor e apertando a mão da mulher à sua frente, despediu-se com um sorriso cúmplice.
- Realmente, até porque, a história vai ser muito mais instigante se ninguém souber quem é esse homem tão deliciosamente escondido, não é?

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10.2.09

A Fada e o besouro - Parte XIX


- Realmente não - ele riu, divertido - mas, vem cá... como é essa história? Vocês estão juntos ainda ou não?
- Uma perguntinha capciosa, meu jovem... - Ela sorriu, maliciosa - sim, e não. Nunca estivemos juntos, mas nunca estivemos separados também. Somos amigos, sempre fomos. Ele já se casou, eu também. Várias vezes. Mas somos amigos, enquanto casados, sempre nos encontramos como amigos - ela deu uma piscadela marota para ele - pelo menos na hora do encontro.
Riram os dois, achando graça na malícia dela. Ele estava se sentindo surpreendentemente à vontade na companhia dela. Resolveu arriscar mais uma.
- Mas... vocês ainda se vêem com freqüência?
- Sim, mas nunca fomos muito freqüentes, sabe? Às vezes é legal você saber que a outra parte existe e pode ser acionada a qualquer momento, a qualquer hora. Mas isso não quer dizer que você vai fazer uso dessa prerrogativa sempre, o tempo todo. Eu o procurei algumas vezes. Às vezes com carinho, às vezes com urgência. Ele também. Já apareceu aqui ou marcou encontros inusitados do nada. Mas também já tivemos nossos corpos próximos dias seguidos. E ficamos distantes fisicamente por meses também. Mas sempre soubemos que éramos amigos próximos, íntimos. Muito mais que todos poderiam supor... Mas isso foi uma escolha nossa... afinal, não acha que é muito bom termos algo em que podemos ter controle total de como as pessoas enxergam isso?


Photoshop, fotos sxc.hu

4.2.09

A Fada e o besouro - Parte VIII


- Deliciosamente irresponsável?
- Sim, ele é uma criança grande, um humor maravilhoso, uma enorme alegria de viver, assim como uma criança. Sabe quando a criança faz uma arte, aí você vai zangar com ela e ela te olha com uns olhinhos que querem dizer que não fizeram nada de errado? Você consegue continuar brigando? Eu não conseguia, e não consigo até hoje.
- Sim... isso acontece comigo também.
- Acontece com todo mundo! Todos somos assim. Olhos carinhosos sempre nos deixam desarmados! Venha cá... quero lhe mostrar uma coisa - Ela se levantou e foi até a escrivaninha, abriu uma gaveta e tirou um retrato.
Estendeu a fotografia para o rapaz. Nela, um homem de costas, com o cabelo e a camisa manchados de verde, pintava uma parede com a mesma cor. O rapaz olhou inquisidoramente para a senhora de braços cruzados à sua frente.
- Sim, é ele. Eu havia acabado de sair da casa de meus pais. Ia morar sozinha, uma tia tinha um quitinete minúsculo que acabara de vagar. O inquilino anterior tinha arrasado com o imóvel, mas eu aceitei ir morar lá em troca de reformar e manter o lugar. Ele se ofereceu para me ajudar, passamos um final de semana juntos lá, pintando, arrumando. Ele me ajudou a escolher as tintas, colocar milhões de prateleiras para os meus livros e a montar os móveis que eu tinha. Uma cama e um armário. Ele trouxe uma mesa dobrável toda enferrujada que ganhou num bar ali por perto, lixou e pintou a mesa de lilás com flores amarelas e brancas. Meu apartamentinho ficou lindo, lindo. Minha tia quase quis voltar a morar lá depois que viu como ficou. Tirei essa foto quando ele deixou o rolo de tinta cair na própria cabeça. Ele era extremamente estabanado, desajeitado. Era hilário fazer qualquer coisa dentro de casa com ele. Até hoje, quando sei que ele vem, dou um jeito de tirar os bibelôs do caminho.
- Hummm, ele continua vendo a senhora?
- Acha mesmo que alguém com nossa história pára de ver um ao outro?
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28.1.09

A Fada e o besouro - Parte VII


- Nem tanto... nem sempre a gente toma as atitudes corretas quando elas são necessárias, não concorda? E quem não promete nada, nem tem nada a cumprir nunca pode apontar, não é? Olho pra tua mão direita... você usa um anel que me parece ser uma aliança de noivado. Mas, se eu nunca lhe perguntar se é ou não uma aliança, eu nunca vou saber... você pode até me contar, mas como eu não perguntei, não quero saber e então tenho toda a liberdade do mundo pra não reter essa informação.
O rapaz assentiu com a cabeça, inclinou-se um pouco para a frente e ela continuou - Na verdade, ele não fez nada. Isso que me irritou. Eu havia acabado de conhecer alguém, tinha ficado completamente apaixonada, só tinha olhos pra minha nova conquista, e acabei deixando-o de lado. Ainda mais que ela morria de ciúmes dele. Na época ele estava com alguns problemas pessoais, e não lutou pela minha presença, não me procurou. Envenenada pelo ciúme que me rodeava, acabei confundindo a distância que ele mantinha com descaso e numa manhã, querendo provar um amor que estava já definhando, queimei a carta dele.
- E como ficou depois?
- Deprimida, óbvio! Sou uma mulher diferente, mas no fundo, sou uma mulher. Impulsiva como todas. Romântica, até. Quando o relacionamento terminou, quis me apegar àquela carta, como uma forma de reatar o que eu havia deixado passar. E ela não estava mais lá. Fiquei meio mal. Mas, para minha felicidade, já era perto do Carnaval novamente e já no sábado ele me aparece de pierrot em minha casa. Com um arranhão no rosto, das unhas de alguma vagabunda, e um hálito de álcool que me fez repensar se a companhia dele valia a pena naquele dia - os dois riram, ele imaginando a cena, ela recordando-a - mas acabei colocando-o pra dentro e contei-lhe o que havia feito. O danado riu e me lembrou que na tal carta não havia uma única linha que prestasse. Eu tinha como ficar brigada com alguém tão deliciosamente irresponsável?
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22.1.09

A Fada e o besouro - Parte VI

- Muito bom... mas um sério risco de pneumonia, não é?
- E alguém liga pra isso quando se tem vinte e poucos anos? Naquele carnaval eu não o vi mais... ficamos um tempo separados, ele foi trabalhar em Recife, Salvador, algo do gênero, e ficou uns bons dois meses por lá. Voltou com umas tranças horrorosas e músicas para todo um disco novo debaixo do braço. Acho que foi o disco dele que eu mais gostei. Ele esteve em minha casa, ms não ficou muito, eu estava morando com alguém, alguém que tinha um ciúme doentio dele. Acho que sentia que havia uma conexão entre nós. Só não sabia se carnal ou apenas intelectual. Ele veio, mostrou as músicas e saiu com dois poemas que eu havia escrito. Os copiou à mão, meteu no bolso da camisa e saiu porta afora rindo feito doido. Um mês depois, sem notícias dele, recebo em casa um quadro que um amigo dele, pintor havia feito, com base nos poemas que eu havia escrito. Ele era hilário, me fazia essas surpresas, como quem dizia, "estou longe, mas continuo por perto". O relacionamento em que eu estava não durou muito. Muito ciúme, muito controle. Não gosto disso... a gente enjoa quando tem essa cobrança. Não gosto, nunca gostei, acabo cansando. Tenho de ter meu espaço, senão eu enlouqueço. Gosto de ficar sozinha às vezes, com minhas canetas, meus papéis, máquina fotográfica e músicas. E pessoas que tentam me tolher eu podo de meus dias.
Ela deixou a janela e andou até uma escrivaninha a um canto. A madeira escura denotava a antigüidade do móvel. Sobre o tampo, um computador portátil. Um pode de cerâmica com canetas e lápis. Uma resma de papel de diversas cores dentro de uma caixa de plástico azul. Ela abriu uma das gavetas e tirou um maço de cartas, amarradas com um laço de cetim azul.
- Eu recebo muitas cartas, sabia? Não apenas emails, mas cartas também. Consegui incutir na cabeça de alguns de meus leitores o prazer de escrever cartas. O prazer de esperar pelas notícias dos outros, a alegria de reconhecer a letra do lado de fora do envelope. A magia das letras desenhadas no papel. Ele me mandou só uma, uma das primeiras, que acabei queimando um tempo atrás.
- Queimou a carta de teu amigo? Ele deve ter aprontado uma daquelas com a senhora, não?

17.1.09

A Fada e o besouro - Parte V



- Será que só ele é que gosta de ser tensionado?
Ela jogou a cabeça para trás e explodiu numa gargalhada - Claro que não, meu jovem amigo, eu também gosto... acho que esse era o grande momento de nossa amizade. Saber o quanto tensionar, o quando deixar solto, o quando pedir e o quanto entregar. É difícil ser amigo, sabe? Ainda mais entre homens e mulheres, em grande parte das vezes, confunde-se amizade e desejo, e são poucas as mulheres e muito menos os homens que sabem separar a hora da amizade da hora do desejo, por sorte, fazemos parte dessa minoria, por isso temos essa conexão há tanto tempo.
Um estrondo sacudiu as vidraças, o rapaz se encolheu de susto com o trovão enquanto ela pareceu não se importar. Levantou-se calmamente e foi até a janela. Abriu-a e recebeu alguns respingos no rosto. Voltou-se para o rapaz, tomou-o pela mão. Ela tinha as palmas macias, mas fortes. Trouxe-o até o peitoril da janela, lá fora, uma tempestade de verão desabava sobre a cidade e uma aragem úmida invadia a sala.
Os dois estava com as mãos apoiadas na madeira do caixilho, recebendo grossas gotas de chuva nos dedos. Ambos de olhos fechados, a brisa molhada acariciando o rosto dos dois. Ela quebrou o silêncio.
- Gente... como é bom, é revitalizante ter a chuva no rosto, não acha? Como é bom... pena que não tenho me molhado tanto quanto gostaria... Me lembro de um carnaval. Eu o encontrei por acaso em um bloco, e foi nos vermos e um temporal desabou, eu usava um capuz vermelho, ele estava com um panamá todo amassado, típico dele. Nos escondemos entre dois sobrados, para nos proteger das pessoas, e não da chuva. Esperamos o bloco se distanciar e voltamos para a rua, molhados, inebriados pela experiência de termos deixado os céus nos lavarem de tudo, deixando-nos limpos e puros para o que quiséssemos dali para frente. Ficamos os dois dançando, pulando pelos paralelepípedos molhados, tendo ao fundo as marchinhas do bloco que ia lá na frente... nos molhamos muito aquele dia... ele acabou comprando uma toalha para que eu voltasse para casa, de tão encharcada de água e felicidade que eu estava.
Photoshop, sobre imagens sxc.hu

15.1.09

A Fada e o besouro - Parte IV



O rapaz sorriu - Eu sei... tenho muito desses tipos de problema... mas... voltando... isso faz tempo... como foi a repercussão do livro? Não na imprensa ou no público, isso eu posso consultar em arquivos... quero saber entre vocês dois... que eu me lembre a senhora não estava sozinha na época.
- Realmente... não estava, e a pessoa com quem eu estava o via apenas como um amigo meu, o que, realmente era na época. Quando ele um dia apareceu em meu apartamento com uma garrafa de vinho, um buquê de rosas e um exemplar do meu livro ela tomou um susto, mas bebeu tanto que dormiu no sofá e nos deixou sozinhos, comemorando meu feito...
- Nossa... um triângulo! Uma revelação e tanto!
- Sim, isso eu te peço para não incluir, sugira, apenas... até porque essas figuras geométricas aparecem sempre em nossas vídas... temos vidas cíclicas, círculos viciosos e virtuosos, triângulos amorosos, somos quadrados ou obtusos, dependendo de quem nos olha... quem nunca se envolveu num triângulo? Quem nunca andou em círculos na vida? Alguns de nós têm vidas paralelas, que não se encontram nem no infinito. Vivemos buscando pontos de fuga pra nossas vidinhas sem perspectivas - ela deu uma gargalhada e completou - menino... havia séculos que eu não lembrava tanto de uma certa professora de matemática... ela acabou entrando na minha vida também... e foi uma loucura... porque eles começaram um caso e se encontravam em minha casa, por sorte durou pouco, antes que eu começasse a sentir ciúmes - ela notou uma das sombrancelhas dele se erguendo, e sorrindo, continuou - sim, eu também sou capaz de sentir ciúmes, também sou egoísta... todos somos... alguns só disfarçam melhor. Eu me canso das pessoas... talvez nunca tenha me cansado dele porque ele nunca foi muito próximo, nunca se deixou aproximar muito, ele sempre pairou em minha vida, mas como não ocupava um espaço definido, eu nunca me cansei dele... era uma espécie de bóia, sabe... que estava sempre por perto, mas nunca me estorvava de tê-la de ficar carregando comigo. Acho que foi isso sim... mas dessa vez eu quase senti ciúmes... como eu podia dividir aquela companhia com outra? No começo achei o máximo ser alcoviteira, mas depois a sementinha do ciúme começou a crescer no meu peito... Ainda mais tão próxima de mim... não nego que olhei pelo buraco da fechadura uma ou duas vezes, querendo saber o que eles conversavam e o que faziam... contei isso a ele depois, ele morreu de rir... disse que sabia que eu fazia isso... mas não sabia nada... falou apenas para mexer comigo. Mas acabou, eles se cansaram um do outro e voltamos à nossa amizade só nossa. Mas a experiência foi boa, sabe? Me rendeu frutos.
- Seu segundo livro?
- Não, o terceiro, uma novela. "A hora em que seremos ninguém". O caso deles dois me acendeu uma centelha que me fez escrever, usei as características físicas dela na personagem principal, e o temperamento dele nela. Ele deu muita risada quando leu os originais e perguntou se era uma vingancinha o que fiz com a personagem no final... pois, se fosse, ele ia ficar com medo de mim, um dia. Ele ainda disse que ligaria pra ela só pra avisá-la que eu tinha ficado com raivinha. Mas sei que ele nunca faria isso, ele gostava mesmo era de implicar comigo.
- Só implicar?
- Claro que não... mas eu também implicava muito com ele, o provocava... e isso o estimulava, sempre estimulou. Ele gosta de ser tensionado...

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13.1.09

A Fada e o besouro - Parte III


A resposta veio num sorriso cúmplice e ele, enfim, voltou a xícara vazia para a bandeja sobre a mesa. Então resolveu fazer uma pergunta.
- Estou vendo que esse rapaz foi bem importante... será que posso supor mais coisas?
- Ahh, vocês jovens... supõem tanto!!! Supõem quando devem ter certeza, têm certeza de suposições... mas estou de bom humor e simpatizei com você, tens olhos que me trazem boas lembranças. Digamos que ele foi um dos primeiros. Até porque, dificilmente há um primeiro, uno, único! Existem primeiros... imagine o homem que pisou na Lua... ele foi o primeiro, único, o que deixou lá o pezinho dentro da bota branca marcado nas areias lunares. Mas será que ele aproveitou ser o primeiro? Talvez o segundo, o terceito astronauta é que tenha conseguido fazer a Lua feliz, que a tenha explorado como ela gostaria que fosse. Ou quando leu um livro, teve a primeira vez. Mas só na quarta que você consegue entrar na cabeça do autor e... zás! Capturar a idéia que ele queria passar, então essa é a primeira vez que conta, mas você já esteve com o livro nas mãos e nos olhos outras vezes. Ele já era teu conhecido, amigo, parceiro... e não foi uma vez... na nossa vida, não conta o primeiro, o desbravador, o que fincou a bandeira no território hostil, mas sim o que, em definitivo, toma posse da terra e a lega a seus descendentes.
Ela deixou uma pausa, para que o rapaz assimilasse o que ela dissera - Ele foi sim, um dos primeiros, assim como você é um dos primeiros repórteres a quem conto essa história, se é o uno, o único, o desbravador, isso eu não sei... também não sei se será o que tomará posse definitiva do que estou contando... nem sei se ao tentar ser, seus editores ranzinzas e bitolados deixarão que o mundo veja uma história que não tenha nas primeiras linhas o "quê, quando, onde e porquê" que tanto irritam os que sabem ler de verdade.

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12.1.09

A Fada e o Besouro - Parte II



O rapaz acomodou-se melhor na cadeira, apoiando os braços sobre a bolsa, dando a entender que era todo ouvidos. A senhora pigarreou e começou.
- Faz algum tempo, aliás, faz muito tempo, eu era jovem e bonita, e tinha belas pernas. Eu o conheci numa gafieira, ele estava bêbado, e se não dançava mal, também não era bom dançarino. Sempre me irritei de dançar com homens que não sabiam conduzir direito, achei que não fosse gostar de dançar com ele, mas, por incrível que pareça, mesmo ele não sendo bom, o lance fluía e deslizávamos pelo salão. Sei que no final, dei o número de meu telefone para ele, coisa que eu nunca havia feito com homem nenhum. Ele me ligou algumas vezes e acabamos amigos. No início ele tentou se aproximar demais, mas sempre me respeitou e foi amigo. Aí acabamos amigos mesmo. Um dia estávamos conversando e ele me entregou um livro dele, os originais, para que eu lesse. Ele era músico, professor, fazia um monte de coisas ao mesmo tempo e eu achava graça no jeito bagunçado dele. Gostei do que ele tinha escrito e ele disse que aqueles originais eram meus, para que eu olhasse praquele calhamaço e me sentisse tentada a produzir um igual.
Uma outra senhorinha entrou na sala com uma bandeja, depôs sobre a mesa um bule, duas xícaras e um pratinho com biscoitos.
- Café? Sei que jornalistas são viciados em café e cigarros. Eu mesmo já trabalhei em um jornal por uns tempos, um jornal que já acabou, mas que chegou a ser conhecido aqui. Fui revisora lá, cheguei até a publicar umas crônicas. Isso me abriu algumas portas. Mas voltando a esse amigo... íamos nos correspondendo, nos falando, quando tínhamos brechas, nos encontrávamos e contávamos de nossos planos. Um dia mandei a ele o início de um texto, ele adorou, me disse que era por ali mesmo, que eu tinha de continuar. Resolvi que escrever seria um objetivo... alguns meses depois eu levei um rascunho para ele ler. O louco pegou meus originais e mandou para um amigo, que trabalhava numa editora e eu fui incluída numa coletânea de novas autoras. Depois de um tempo, começaram a chegar convites para novas coletâneas, e um dia, escrevi um livro inteiro. Lembro de ter terminado de parir o livro, foi essa a expressão que ele usou, ao lado dele, ganhando massagem nos ombros enquanto terminava de escrever. Engraçado como foi importante tê-lo ali. Nessa época algumas pessoas já me usavam como exemplo, por conta de minhas posições, você sabe, não é? Sempre fui muito franca quanto ao que eu sentia, quanto ao que eu gostava, mas essa minha amizade com ele era meio proibida, era um jogo nosso, costumávamos falar que éramos proibidos. Ele começou a fazer sucesso, eu também, cada um em sua área, muitos poderiam ver algo mais em nossa amizade - ela deu uma pausa, tomou um gole de café e continuou - até chegamos a pensar em nos deixarem ver juntos, fingindo mais intimidade até do que realmente tínhamos, só pra ver se alguém comentava, mas achamos melhor não, era mais divertido ficarmos escondidos, mais gostoso... - nova pausa e os olhos dela brilharam maliciosos, fitando o rapaz, que agora estava ligeiramente inclinado para frente, a xícara vazia entre as mãos - por acaso você já deve ter feito algo escondido, nem que seja pegar biscoitos escondidos de sua mãe... são mais gostosos, mesmo sabendo que se você pedir, ela os dará a você, não é?
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5.1.09

A Fada e o besouro - Parte I

O repórter apertou a campainha e esperou a porta abrir. Mal tinha começado a reparar nos entalhes da porta pintada de branco quando uma senhora a abriu, cumprimentou-o com um aceno de cabeça e fez sinal para que ele entrasse. O rapaz seguiu a mulher por um corredor coalhado de fotos e recortes emoldurados de jornais e revistas. Chegaram a uma sala de pé-direito alto, com um piano a um canto. Cadeiras de espaldar alto estavam dispostas ao redor de uma mesa baixa. Em uma das extremidades, uma cadeira de balanço, de palhinha, onde a senhora se sentou, cruzando as mãos sobre o colo, enquanto indicava com a cabeça uma cadeira para o rapaz acomodar-se.
O jovem, normalmente muito falante, estava num silêncio respeitoso por aquela senhora de cabelos brancos e olhos instigantes. Estava tirando um gravador da bolsa quando ela falou pela primeira vez. A voz era suave e surpreendentemente jovem.
- Não precisa gravar não. Na minha idade já passei do tempo de contestar o que escrevem sobre mim. Não precisa nem anotar, escreva apenas o que achar que vale a pena. Ou o que sua cabeça lembrar, ou como ela lembrar, tanto faz.
Ele voltou o gravador para a bolsa, fechou-a e cruzou as pernas, os olhos fixos nos da mulher à sua frente.
- Então... acho que você quer saber como é que eu me sinto como uma escritora que teve um de seus obscuros livros relacionados como relevante por uma revista inglesa sobre literatura, não é, meu amiguinho? Pois isso não é o mais importante, sabia... um telefonema que recebi ontem foi mais importante que essa escolha. Sabe porque? Porque o telefonema veio de uma pessoa que me incentivou a escrever. A escrever esse livro, para ser mais exata. Quer saber dessa história? Ou acha isso apenas devaneios de uma velha senhora?