15.4.12

(des)Acertando ponteiros

Entrou na loja. O shopping estava às moscas. Segunda-feira, vinte minutos antes do fechamento das lojas. Dia 28. Ninguém nos corredores. A vendedora, uma morena de cabelos amarrados num coque e sombra esverdeada nos olhos estava debruçada no balcão, alheia à tudo, brincando no celular.

Ele pigarreou, chamando a atenção da moça, que levou um susto e empertigou-se com o melhor sorriso amarelo da praça - Boa noite! Em que posso ajudá-lo?

Ele se aproximou, sorrindo também e tirando um relógio do bolso - Eu comprei esse relógio com vocês um tempo atrás. Agora a bateria acabou, vocês têm dela pra trocar?

A atendente com um "Regina" escrito no crachá pegou o relógio, analisando o modelo - Nossa! Tem tempo, hein? Não vejo um desses aqui há anos! Quando você o comprou?

- Tem uns quatro anos, nunca me deu problema. Hoje eu cheguei atrasado no trabalho porque ele parou e eu não notei. Levando em conta o tempo, nem posso brigar com ele, não acha?

Ela olhou para ele e sorriu, abaixando-se em seguida para procurar a bateria sob o balcão. Quando ela levantou-se, com a caixa de baterias e ferramentas na mão ele notou que, na mão direita dela, havia uma marca mais clara no dedo anular. Ficou observando-a trabalhar. Em instantes ela havia aberto o relógio e trocado a bateria. Quando ela foi acertar as horas no relógio recém-consertado, ele resolveu arriscar.

- Ainda dói?

Sem entender nada, ela olhou para ele, que, delicadamente, levou o dedo até a mão dele, tocando suavemente a marca - Aliança? - Ela assentiu com a cabeça, sem falar nada, mas ele reparou que os olhos dela tremeram, como se temessem se molhar - Eu te entendo... - colocou as duas mãos sobre o balcão, retirando um largo anel de prata do anular esquerdo, deixando à mostra uma marca bem mais fina e clara na pele do dedo. Sem levantar os olhos, completou - Três semanas ontem. E não... por mais que pareça, isso não é uma cantada, tá? Só me deu vontade de desabafar...

Ela tocou-lhe a mão, a pele dela era morna e macia. Sem que os olhos dos dois se cruzassem, enfim ela respondeu.

- Quatro dias, e dói como se nunca mais fosse sarar...

Um comentário:

cave@ri disse...

Esses "avulsos" me deixam com muuuiita vontade de saber algo mais... talvez mais um parágrafo ou mais algumas linhas... aiai...

abraços